A empatia entre a "campaniça" de Pedro Mestre e a "caipira" de Chico Lobo é evidente e talvez só se explique pelo parentesco entre ambas – "a caipira é filha da campaniça", afirma convicto o violeiro de Minas Gerais. O entendimento é perfeito e as modas alentejanas parece terem sido feitas para a viola brasileira tal como a seresta caipira para a alentejana. Uma e outra confundem-se, embora cada qual mantenha a sua identidade.
As duas vêm de contextos semelhantes: caipira e campaniça significam campestre e retratam quotidianos populares ligados ao campo, embora a realidade actual seja diferente. A campaniça está associada ao lazer após o trabalho –"eu tocava muito ao despique", testemunha Manuel Bento, o mestre de Pedro… Mestre. A caipira serve para acompanhar as festas religiosas, tais como as "folias de reis e as festas juninas", como explica Nelson Jacó, o mestre que Chico Lobo trouxe de Jequitibá, no Estado de Minas Gerais. Todavia, argumenta Pedro Mestre, "é possível que a campaniça também tenha tido uma função religiosa, acompanhado as romarias, mas entretanto mudou". E tanto mudou que "chegou a ser declarada extinta", diz o músico alentejano. A caipira é que "nunca perdeu a função", contrapõe Chico Lobo, "ela não sobrevive por causa dos artistas, continua presente nas festividades e por isso nunca teve os problemas da viola alentejana".
Ao Município de Castro Verde, ao programa da Antena 1, Lugar ao Sul, de Rafael Correia, e a José Francisco, outro autor de programas de rádio, se devem, em boa parte, o ressurgimento da campaniça. "No Brasil" – intervém Chico Lobo – "a caipira já saiu do mundo rural e conquistou a cidade grande, através da televisão, mas não se descaracterizou". Pedro Mestre sonha: "A campaniça precisa de chegar às pessoas, sobretudo aos jovens, que aprenderão a tocá-la". O disco Encontro de Violas é um excelente incentivo, nele a campaniça evolui, ganha novos horizontes e chega longe, mas não perde a identidade. "Não podemos ter pressa, o trabalho tem de ser sério", conclui Chico Lobo.
Quando estas violas tocam em conjunto não é apenas a sonoridade da caipira mais a sonoridade da campaniça que estão presentes, são duas culturas, dois povos que sobem ao palco.

autor João Matias texto José Serrano fotos
16/05/2008 - 10h57