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Subscrevo esta coluna no "Diário do Alentejo" ("DA") há muito tempo. Nem sempre de forma regular e assídua, mas há já alguns anos que comecei a colaborar com este jornal da minha terra, com raízes na cidade onde nasci e que funciona, para muitos bejenses na diáspora, como um elo de ligação à sua terra natal, à sua região, à sua cidade. Vemos isso quando nos deslocamos à área metropolitana de Lisboa, ao deparar com o "DA" nas mesas de uma associação cultural da Baixa da Banheira, ou ao contactar com um conterrâneo, a residir na Amadora, que nos vai dizendo que soube disto ou daquilo pelas páginas do "DA".
Há uma espécie de relação afectiva entre os bejenses e este jornal, e é essa mesma relação e o respeito que me merecem todos aqueles que o lêem, que me leva a alterar os planos que tinha para este número do Ângulo Inverso e escrever um texto que é "inspirado" numa chamada de primeira página na anterior edição do "DA" a propósito de mobilidade para pessoas com deficiência.
Que haja quem utilize as páginas e os espaços que o "DA" disponibiliza para emitir a sua opinião, é natural. Que essa opinião seja contrária, ou mesmo oposta, à minha ou à de qualquer outro leitor do jornal, também é natural e, nalguns casos, obrigatório, já que muitos dos que escrevem para este jornal, a única coisa em comum que têm é mesmo o facto de serem, ambos, colaboradores do "DA"! Da mesma forma que quem lê o jornal com regularidade e espírito crítico, também já sabe o que pode esperar de qualquer um dos que, regularmente, vão deixando o seu contributo e a sua opinião sobre os temas mais diversos nas páginas deste jornal. Até aqui tudo bem. Estamos no domínio da "opinião".
Só que, quando deixamos o domínio da opinião e passamos ao da informação, da notícia, as coisas "fiam mais fino". Penso que todos estaremos de acordo se dissermos que, para qualquer acontecimento, independentemente da sua natureza, podemos identificar aspectos positivos e aspectos negativos. Qualquer jornal, ao dar a notícia, pode optar por dar mais relevo a uns ou a outros destes aspectos, sendo certo que, ao valorizar os aspectos positivos estará a contribuir para valorizar a imagem dos protagonistas, da mesma forma que, ao valorizar os aspectos negativos, estará a "dar uma mãozinha" para denegrir essa mesma imagem. Essas opções, por um ou por outro dos caminhos, cabem dentro daquilo a que se chama o "critério jornalístico", e é da forma como essas "opções" vão sendo tomadas, ao longo do tempo, que se pode fazer uma "radiografia" da linha editorial de um jornal. É aí que ele se define, muito mais do que em qualquer declaração de princípios ou estatuto editorial.
Posto isto, e indo directamente ao assunto, há já bastante tempo que este "DA" vem assumindo um conjunto de "opções" em relação a Beja. Melhor dizendo, à cidade e ao concelho de Beja, já que em relação a outros concelhos do mesmo distrito não vemos esse comportamento. Em regra, qualquer notícia sobre a cidade é dada pela negativa. Sistematicamente. O caso das obras no âmbito do Polis foi suficientemente esclarecedor, mas basta fazer uma "ronda" pelos vários números para o perceber em toda a sua dimensão: o "critério jornalístico" não podia ser mais claro.
No último número do "DA", a propósito de uma matéria muito séria e que não devia ser utilizada como arma de arremesso, como é o caso das acessibilidades de pessoas com deficiência aos espaços públicos, a estória repete-se. Com chamada de primeira página diz-se que a "mobilidade de deficientes é muito complicada em Beja" e, no caderno "Alentejo Ilustrado", diz-se que "Beja [é] uma cidade interdita a alguns". Qualquer dos casos pela negativa, e especificando claramente que é de Beja que falamos… Dá ideia que a notícia e a reportagem que foi feita pela cidade será um extenso rol de problemas, de imobilismo das autoridades locais, de desleixo no estabelecimento de acessibilidades e de distanciamento face ao problema! Mas não. No trabalho jornalístico é feito um elogio à renovada Rua António Sardinha, é dito por uma das pessoas que "guiaram" a visita que a cidade "está agora mais acessível", ao mesmo tempo que outra refere que Beja "não é o paraíso para quem não vê, mas há cidades bem piores" e que a introdução da sinalização sonora nos semáforos de peões "foi uma grande melhoria" para os invisuais. É inclusivamente referido que em Beja "se registam esforços para a promoção da autonomia dos cidadãos com deficiência"!!! Então, que mal pergunte, qual é a justificação para aqueles títulos? Qual é o "critério"?
Todas as obras promovidas no espaço público, pela Câmara Municipal de Beja, são ignoradas ou omitidas. Não é verdade que toda a zona das Portas de Mértola, do Largo dos Correios ao Jardim do Bacalhau, é uma zona pedonal? Não é verdade que as recentes intervenções, na Praça da República, no Largo de Santo Amaro, no Largo de S. João, na Praça Diogo Fernandes, na Avenida Miguel Fernandes ou na Rua de Lisboa tornaram estes espaços completamente acessíveis para pessoas com mobilidade reduzida? Não é verdade que o Parque de Feiras e Exposições de Beja, ou o Parque da Cidade, recentemente construídos, tiveram em conta a necessidade de dotar a cidade de um conjunto de acessibilidades que a tornassem mais inclusiva e mais acessível? Então se é verdade, como é, porque é que isto não é notícia? Também é do "critério jornalístico"? Mas já coube no "critério" sublinhar "o esforço do Governo Civil de Beja" em dotar o edifício duma "plataforma elevatória" para acesso ao primeiro andar… Grande "critério"!
Beja dispõe de um serviço de carreiras urbanas em que metade da frota é completamente acessível. Não sei se existirá outra cidade no País que possa dizer qualquer coisa de parecido com isto. Mas o que é que foi notícia para o "DA"? É que uma rampa estava avariada! É assim! Com o mesmo assunto e com a mesma matéria, podemos fazer muitas notícias. Ao contrário do que o "DA" nos disse a semana passada, Beja, sem ter resolvido todos os problemas de acessibilidades para pessoas com mobilidade reduzida, é uma cidade com trabalho feito nessa matéria e não tem medo ser comparada com nenhuma outra cidade do País.
Podíamos dar mais exemplos, mas acho que o que foi dito é suficientemente esclarecedor. Só lamento que na ânsia de denegrir a imagem e a intervenção da Câmara Municipal de Beja, se contribua para denegrir e menorizar a imagem e o prestígio da cidade de Beja. Da mesma forma que lamento que um jornal respeitado e com memória, como é o "Diário do Alentejo", esteja a ser, consciente ou inconscientemente, colocado ao serviço de interesses partidários em torno das próximas eleições autárquicas. É triste.
RESPOSTA A UMA ESTRANHA INDIGNAÇÃO
Enquanto autora do trabalho e respectivo título a que se refere – "Beja: uma cidade ainda interdita a alguns" – julgo que é meu dever não deixar passar em branco o seu comentário com que, curiosamente, preenche toda uma crónica. Confesso, no entanto, a minha dificuldade em fazê-lo porque não sei, ao certo, em que terreno estou a pisar. São-me completamente alheios os seus azedumes face ao "Diário do Alentejo" e às suas alegadas estratégias "ao serviço de interesses partidários". Creio que saberá do que fala e creio também que estará consciente da desproporcionalidade da sua indignação. Trata-se "apenas" de um trabalho sério, equilibrado e o mais objectivo possível sobre barreiras arquitectónicas na cidade de Beja, que tenta espelhar a realidade através dos olhos mais credíveis: os das pessoas com deficiências motoras, visuais ou auditivas, que sentem na pele diariamente os obstáculos de uma cidade que não foi feita à sua medida. E Beja, julgo ter frisado bem, não é caso único. No País, não faltam exemplos de situações bem mais graves, como aliás salienta um dos entrevistados. Em resposta à sua pergunta, direi que o "meu" critério foi este. Optei, propositadamente, por dar primazia à voz dos cidadãos, infinitamente mais importante no trabalho em causa, em detrimento do discurso institucional, que, apesar de tudo, não omiti. Recordo-lhe que na caixa "Uma lei que ficou por cumprir", enumero, à conversa com a coordenadora da Rede Social do Concelho de Beja, as intervenções físicas que, em breve, terão lugar em vários edifícios e equipamentos municipais, para além das campanhas de sensibilização junto dos técnicos que já estão a surtir os seus efeitos. Presumo que tenha lido.
Queria só terminar, deixando bem claro que, como jornalista e ao serviço de "um jornal respeitado e com memória", como muito justamente classifica o "Diário do Alentejo", não me cabe fazer balanços da obra feita pela Câmara Municipal de Beja a propósito de todo e qualquer trabalho que diga respeito à cidade. Fá-lo-ei quando tal se enquadrar no tema e contribuir, justificadamente, para o esclarecimento dos leitores. E, claro, de acordo com os "meus" critérios jornalísticos. A divulgação da "obra feita" faz-se nos boletins municipais e a propaganda político-partidária no âmbito das campanhas eleitorais. E este ano é recheado.
Carla Ferreira 
autor Victor Silva
28/01/2005 - 11h53